quarta-feira, 29 de junho de 2016



A   V I  D A 
 

Autor: João de Deus (poeta português)
 
 

A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;

A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura num momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave:
Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,
A vida – pena caída
Da asa da ave ferida

sábado, 25 de junho de 2016

    P L E N I L Ú N I O
     

    R A I M U N D O   C O R R E I A

     
    Além nos ares, tremulamente,
    Que visão branca das nuvens sai!
    Luz entre as franças, fria e silente;
    Assim nos ares, tremulamente,
    Balão aceso subindo vai...

     
    Há tantos olhos nela arroubados,
    No magnetismo do seu fulgor!
    Lua dos tristes e enamorados,
    Golfão de cismas fascinador!

    Astro dos loucos, sol da demência,
    Vaga, noctâmbula aparição!
    Quantos, bebendo-te a refulgência,
    Quantos por isso, sol da demência,
    Lua dos loucos, loucos estão!


    Quantos à noite, de alva sereia
    O falaz canto na febre a ouvir,
    No argênteo fluxo da lua cheia,
    Alucinados se deixam ir...

    Também outrora, num mar de lua,
    Voguei na esteira de um louco ideal;
    Exposta aos euros a fronte nua,
    Dei-me ao relento, num mar de lua,
    Banhos de lua que fazem mal.

    Ah! quantas vezes, absorto nela,
    Por horas mortas postar-me vim
    Cogitabundo, triste, à janela,
    Tardas vigílias passando assim!

    E assim, fitando-a noites inteiras,
    Seu disco argênteo n'alma imprimi;
    Olhos pisados, fundas olheiras,
    Passei fitando-a noites inteiras,
    Fitei-a tanto que enlouqueci!

    Tantos serenos tão doentios,
    Friagens tantas padeci eu;
    Chuva de raios de prata frios
    A fronte em brasa me arrefeceu!

    Lunárias flores, ao feral lume,
    -Caçoilas de ópio, de embriaguez-
    Evaporavam letal perfume...
    E os lençóis d'água, do feral lume
    Se amortalhavam na lividez...

    Fúlgida névoa vem-me ofuscante
    De um pesadelo de luz encher,
    E a tudo em roda, desde esse instante,
    Da cor da lua começo a ver.

    E erguem por vias enluaradas
    Minhas sandálias chispas a flux...
    Há pó de estrelas pelas estradas...
    E por estradas enluaradas
    Eu sigo às tontas, cego de luz..
    .
    Um luar amplo me inunda, e eu ando
    Em visionária luz a nadar.
    Por toda parte louco arrastando
    O largo manto do meu luar...


     
     
     

quarta-feira, 22 de junho de 2016





Poema de Sete Faces
 
 
Carlos Drummond de Andrade
 
Quando nasci, um anjo torto
desses que vive na sombra
disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
Que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
Não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
Pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
 

segunda-feira, 20 de junho de 2016




BAILE DE INVERNO

 

Havia um baile de alegres rosas,
Jasmins, hortênsias, e a par e par
Esguios grilos e mariposas
E outros insetos. Tudo a bailar.

Música - uns finos leves arruídos,
Flébeis violinos, flautins, rabis,
Imperceptíveis aos teus ouvidos
E aos meus ouvidos, por tão sutis.

Frio de serra no mês dos frios,
Lívido em meio da névoa o luar,
E enamorados e em rodopios
Flores e insetos tudo a bailar.

Súbito param: dentre a ramada
Um som tristíssimo, um ai. Passou.
Foi nada, apenas foi de cansada
Uma camélia que desmaiou.


(Alberto de Oliveira)

 

quinta-feira, 16 de junho de 2016





   NOSSOS     VELHOS   PAIS

 

 

 

 

  TEXTO DE MARTHA MEDEIROS



 
 

    Pais heróis e mães heroínas do lar.Passamos boa parte da nossa existência cultivando estes estereótipos.
   Até que um dia o pai herói começa a passar o tempo todo sentado, resmunga baixinho e puxa uns assuntos sem pé nem cabeça.

     A heroína do lar começa a ter dificuldade de concluir as frases e dá de implicar com a empregada.
    O que papai e mamãe fizeram para caducar de uma hora para outra?
    Envelheceram.... Nossos pais envelhecem. Ninguém havia nos preparado pra isso.

    Um belo dia, eles perdem o garbo, ficam mais vulneráveis e adquirem umas manias bobas.
    Estão cansados de cuidar dos outros e de servir de exemplo: agora chegou a vez deles serem cuidados e mimados por nós, nem que pra isso recorram a uma chantagenzinha emocional.

    Têm muita quilometragem rodada e sabem tudo, e o que não sabem eles inventam.
    Não fazem mais planos a longo prazo, agora dedicam-se a pequenas aventuras, como comer escondido tudo o que o médico proibiu.
    Estão com manchas na pele.Ficam tristes de repente. Mas não estão caducos: caducos ficam os filhos, que relutam em aceitar o ciclo da vida.
   É complicado aceitar que nossos heróis e heroínas já não estão no controle da situação.Estão frágeis e um pouco esquecidos, têm este direito, mas seguimos exigindo deles a energia de uma usina.Não admitimos suas fraquezas, seu desânimo.
    Ficamos irritados e alguns chegam a gritar se eles se atrapalham com o celular ou outro equipamento e ainda não temos paciência para ouvir pela milésima vez a mesma história que contam como se acabassem de tê-la vivido.

       Em vez de aceitarmos com serenidade o fato de que as pessoas adotam um ritmo mais lento com o passar dos anos, simplesmente ficamos irritados por eles terem traído nossa confiança, a confiança de que seriam indestrutíveis como os super-heróis.
     Provocamos discussões inúteis e os enervamos com nossa insistência para que tudo siga como sempre foi.
Essa nossa intolerância só pode ser medo. Medo de perdê-los, e medo de perdermos a nós mesmos, medo de também deixarmos de ser lúcidos e joviais.
     Com todas as nossas irritações, só provocamos mais tristeza àqueles que um dia só procuraram nos dar alegrias.
    Por que não conseguimos ser um pouco do que eles foram para nós? Quantas noites estes heróis e heroínas passaram ao lado de nossa cama, medicando, cuidando e medindo febres !!
    E nós ficamos irritados quando eles esquecem de tomar seus remédios, e ao brigar com eles, os deixamos chorando, tal qual crianças que fomos um dia.
    É uma enrascada essa tal de passagem do tempo. Nos ensinam a tirar proveito de cada etapa da vida, mas é difícil aceitar as etapas dos outros...
    Ainda mais quando os outros são nossos alicerces, aqueles para quem sempre podíamos voltar e sabíamos que estariam com seus braços abertos, e que agora estão dando sinais de que um dia irão partir sem nós.
    Façamos por eles hoje o melhor, o máximo que pudermos, para que amanhã quando eles já não estiverem mais aqui conosco, possamos lembrar deles com carinho, de seus sorrisos de alegria e não das lágrimas de tristeza que eles tenham derramado por nossa causa.
    Afinal, nossos heróis de ontem.serão nossos heróis eternamente. 

 

domingo, 12 de junho de 2016





O    S O N H O



 

ATRIBUIDO A CLARICE LISPECTOR

 

 
Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passam por suas vidas.




OBS: O TEXTO ACIMA É ATRIBUÍDO A CLARICE LISPECTOR, MAS NÃO SE TEM CERTEZA.



sexta-feira, 10 de junho de 2016







R  A  Q   U   E  L








AUTOR: LUÍS VAZ DE CAMÕES



Sete anos de pastor Jacob servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela;

Mas não servia ao pai, servia a ela,

Que a ela só por prêmio pretendia.
 

Os dias na esperança de um só dia

Passava, contentando-se com vê-la;

Porém o pai, usando de cautela,

Em lugar de Raquel lhe deu Lia.
 

Vendo o triste pastor que com enganos

Assim lhe era negada a sua pastora,

Como se a não tivera merecida;
 

Começou a servir outros sete anos,

Dizendo: − Mais servira, senão fora

Para tão longo amor tão curta a vida.

 

Obs: postei acima o famoso soneto do grande poeta lusitano Luís Vaz de Camões, em homenagem ao Dia dos Namorados.
 

sábado, 4 de junho de 2016





A VOLTA   DAS   ANDORINHAS

 

Andorinha lá fora está dizendo:
— “Passei o dia à toa, à toa!”
Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa...

“MANUEL BANDEIRA”




 
 

Linda manhã! A frouxa luz da aurora

Vem colorir meu rosto de carmim.

Desafinados, os pardais lá fora

Já se alvoroçam num cantar sem fim.

 
Do leito eu me levanto com cuidado

E da janela espio a imensidão.

E de repente eu vejo um bando alado:

São andorinhas que chegando vão.

 
E como são garbosas e engraçadas,

Esvoaçando, ligeiras, aos  milhares!

São pequeninas setas arrojadas

Que vão ferir o coração dos ares.

 
Agora mesmo, qual graciosa flecha,

Uma passou, trissando uma canção.

Outra veloz as suas asas fecha

Fendendo o vento, quase rente ao chão.

 

A contemplá-las passo horas amenas...

Vieram de longe...dum país distante,

Talvez trazendo a dor em suas penas,

A saudade talvez de um grande amante.
 

Depois, retornarão ao seu destino,
Sem qualquer cerimônia ou despedida.

No ano que vem, num gesto repentino,
 
Outras virão para alegrar a vida.



 

Geraldo de Castro Pereira