quinta-feira, 18 de janeiro de 2018



TROVAS


No deserto, sem alfombra,
Da minha vida vazia
Não tenho sequer a sombra
Desta sua companhia

Era preto o meu cabelo.
Tornei-me agora grisalho.
Foram beijos, com desvelo,
Enviados pelo orvalho.

“Quem canta espanta seus males”,
Assim que diz o ditado.
Mas,espantarei os outros,
Se eu cantar desafinado.

Homem, ao passar dos anos,
Sofre tantos desatinos!
Costuma não ver de perto,
Mas vê de longe os cretinos


Com você tenho sonhado,
Aos poucos me consumindo...
Com você sonho acordado,
Com você sonho dormindo.


Quando te dei  uma rosa,
Os espinhos arranquei.
É para não machucares
Estes lábios que beijei.

Trovas de minha autoria.

sábado, 30 de dezembro de 2017

RECEITA DE ANO NOVO


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE



Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido),
para você ganhar um ano,
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que, por decreto de esperança,
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.