quarta-feira, 5 de outubro de 2016


O CEGO E SEU COMPANHEIRO DE HOSPITAL

 

Dois enfermos dividiam

Um quarto no hospital.

A cama de um era perto

Da janela principal.

 

A cama do outro enfermo

Era bem mais afastada.

Além disso, sua perna

Tinha sido amputada.

 

O outro lá na janela,

Folgado, se debruçava.

E ao amigo as belezas

Da paisagem ele narrava.

 

Mas, um dia aconteceu

Uma lamentável sina:

O homem lá da janela

Teve morte repentina.

 

O enfermo sobrevivente,

Tristonho e ali sozinho,

Pediu pra por sua cama

Da janela bem pertinho.

 

Dali ele poderia

Apreciar a vista bela

Que seu amigo narrava

Quando estava na janela.

 

Quando olhou para a janela,

Teve um grande sobressalto:

Não havia paisagem,

Mas só um muro bem alto.

 

Perguntou logo à servente,

Que vinha da enfermaria:

-“Onde está a paisagem

Que meu companheiro via?

 

Onde estão as lindas flores,

E o céu todo azulado,

O bando de passarinhos

Chilreando no gramado?

 

Onde estão o ipê florido,

A brisa beijando a aurora,

E o sol colorindo as nuvens?

Nada disso eu vejo agora”.

 

A moça então respondeu,

Pensativa e comovida:

“Seu companheiro era um cego.

Nunca enxergou na vida”.

 

(baseado em mensagem recebida).

Geraldo de Castro Pereira

quinta-feira, 29 de setembro de 2016




Coração


Guilherme de Almeida



Lembrança, quanta lembrança
Dos tempos que já lá vão!
Minha vida de criança,
Minha bolha de sabão!

Infância, que sorte cega,
Que ventania cruel,
Que enxurrada te carrega,
Meu barquinho de papel?

Como vais, como te apartas,
E que sozinho que estou!
Ó meu castelo de cartas,
Quem foi que te derrubou?

Tudo muda, tudo passa
Neste mundo de ilusão;
Vai para o céu a fumaça,
Fica na terra o carvão.

Mas sempre, sem que te iludas,
Cantando num mesmo tom,
Só tu, coração, não mudas,
Porque és puro e porque és bom!






sexta-feira, 23 de setembro de 2016

SER  SEU  AMIGO


VINICIUS DE MORAES
 

   Se eu morrer antes de você, faça-me um favor. Chore o quanto quiser, mas não brigue com Deus por Ele haver me levado.
  Se não quiser chorar, não chore. Se não conseguir chorar, não se preocupe. Se tiver vontade de rir, ria. Se alguns amigos contarem algum fato a meu respeito, ouça e acrescente sua versão. Se me elogiarem demais, corrija o exagero. Se me criticarem demais, defenda-me. Se me quiserem fazer um santo, só porque morri, mostre que eu tinha um pouco de santo, mas estava longe de ser o santo que me pintam. Se me quiserem fazer um demônio, mostre que eu talvez tivesse um pouco de demônio, mas que a vida inteira eu tentei ser bom e amigo. Se falarem mais de mim do que de Jesus Cristo, chame a atenção deles. Se sentir saudade e quiser falar comigo, fale com Jesus e eu ouvirei. Espero estar com Ele o suficiente para continuar sendo útil a você, lá onde estiver. E se tiver vontade de escrever alguma coisa sobre mim, diga apenas uma frase: ' Foi meu amigo, acreditou em mim e me quis mais perto de Deus!' Aí, então derrame uma lágrima. Eu não estarei presente para enxugá-la, mas não faz mal. Outros amigos farão isso no meu lugar. E, vendo-me bem substituído, irei cuidar de minha nova tarefa no céu. Mas, de vez em quando, dê uma espiadela na direção de Deus. Você não me verá, mas eu ficaria muito feliz vendo você olhar para Ele. E, quando chegar a sua vez de ir para o Pai, aí, sem nenhum véu a separar a gente, vamos viver, em Deus, a amizade que aqui nos preparou para Ele. Você acredita nessas coisas? Sim??? Então ore para que nós dois vivamos como quem sabe que vai morrer um dia, e que morramos como quem soube viver direito. Amizade só faz sentido se traz o céu para mais perto da gente, e se inaugura aqui mesmo o seu começo. Eu não vou estranhar o céu. . . Sabe por que? Porque... Ser seu amigo já é um pedaço dele!

 

terça-feira, 20 de setembro de 2016




UM BICHO

 

Vi ontem um bicho
Na imundice do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem

Manuel Bandeira

 

quinta-feira, 15 de setembro de 2016




RUA DAS RIMAS
 
 
Poema de Guilherme de Almeida
 
 
 
A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino
pequenino
é uma rua de poeta, reta, quieta, discreta,
direita, estreita, bem feita, perfeita,
com pregões matinais de jornais, aventais nos portais, animais e
varais nos quintais;
e acácias paralelas, todas elas belas, singelas, amarelas,
douradas, descabeladas, debruçadas como namoradas para as
calçadas;
e um passo, de espaço a espaço, no mormaço de aço baço e lasso;
e algum piano provinciano, quotidiano, desumano,
mas brando e brando, soltando, de vez em quando,
na luz rara de opala de uma sala uma escala clara que embala;
e, no ar de uma tarde que arde, o alarde das crianças do
arrabalde;
e de noite, no ócio capadócio,
junto aos lampiões espiões, os bordões dos violões;
e a serenata ao luar de prata (Mulata ingrata que mata...);
e depois o silêncio, o denso, o intenso, o imenso silêncio...
A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino
pequenino
é uma rua qualquer onde desfolha um malmequer uma mulher
que bem me quer
é uma rua, como todas as ruas, com suas duas calçadas nuas,
correndo paralelamente, como a sorte diferente de toda gente,
para a frente,
para o infinito; mas uma rua que tem escrito um nome bonito,
bendito, que sempre repito
e que rima com mocidade, liberdade, tranquilidade: RUA DA FELICIDADE...

   
 

 

segunda-feira, 12 de setembro de 2016







DEFICIÊNCIAS ( Mario Quintana )

                                             "Deficiente" é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.

                   "Louco" é quem não procura ser feliz com o que possui.

                                         "Cego" é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria, e só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.

                                          "Surdo" é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.
                                        "Mudo" é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da   máscara da hipocrisia.
                                            "Paralítico" é quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda.
"Diabético" é quem não consegue ser doce.

"Anão" é quem não sabe deixar o amor crescer.

                    E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, pois:
"Miseráveis" são todos que não conseguem falar com Deus"


sábado, 10 de setembro de 2016




VERSOS

 

Florbela Espanca

 

 

Versos! Versos! Sei lá o que são versos...

Pedaços de sorriso, branca espuma,

Gargalhadas de luz, cantos dispersos,

Ou pétalas que caem uma a uma...

Versos!... Sei lá! Um verso é o teu olhar,

Um verso é o teu sorriso e os de Dante

Eram o teu amor a soluçar

Aos pés da sua estremecida amante!

Meus versos!... Sei eu lá também que são...

Sei lá! Sei lá!... Meu pobre coração

Partido em mil pedaços são talvez...

Versos! Versos! Sei lá o que são versos...

Meus soluços de dor que andam dispersos

Por este grande amor em que não crês...