sexta-feira, 30 de março de 2018


LENDA  DO  GIRASSOL

No céu distante uma estrelinha havia,
Que amava o sol assim perdidamente.
De tardinha ela sempre aparecia
Antes que o sol sumisse no poente.

Suspirava e absorvia cada raio,
Como a única luz de sua vida.
Chorava e, às vezes, tinha até desmaio,
Numa tristeza infinda e desmedida.

Um dia, procurou o rei do vento,
E, humildemente, fez-lhe um pedido:
Ficar a cada dia e momento
Contemplando de frente o astro querido.

O deus do vento se assustou e, incréu,
Respondeu, com tristeza, à estrelinha:
“Só se você abandonar o céu
E transformar-se numa sementinha”.

A estrela duas vezes nem pensou:
Caiu na terra em forma de semente.
Num lindo girassol se transformou,
Para viver a vida intensamente.

E suas pétalas se abriram tanto,
Sempre girando bem devagarzinho,
E ostentavam o seu charme e seu encanto,
Sempre seguindo o sol em seu caminho.

E o vento começou a espargir
Muitas sementes pelo mundo afora.
E os girassóis puseram-se a florir,
Ornamentando toda a nossa flora.


Obs:baseado numa lenda de domínio público.


Geraldo de Castro Pereira


segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018



O TODO E A PARTE

Poema atribuído a Gregório de Matos.


O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga que é parte, sendo todo.
  
Em todo o sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo.
  
O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.
  
Não se sabendo parte deste todo,
Um braço, que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse as partes todas deste todo.


Obs: o poema acima, de estilo barroco, escrito no século XVII, é atribuído a Gregório de Matos e é baseado num braço supostamente encontrado de uma imagem do Menino Jesus. Possui uma certa dificuldade de compreensão.