quarta-feira, 8 de abril de 2015

           O PARTO DA MONTANHA

A montanha estava prenhe,
E, com tremendo alarido,
Deu ao mundo um espetáculo,
Soltando um grande gemido.

Qual não foi a decepção
De quem seu estrondo ouviu:
Um ridículo ratinho
Na verdade ela pariu.

“Com aquele que promete
E não realiza a façanha,
Acontece exatamente
Como o parto da montanha”.
 
(Fábula de Fedro, livremente traduzida e por mim versificada . Inserida no meu livro "FÁBULAS DI-VERSIFICADAS", publicada pela Editora Protexto).
 

terça-feira, 7 de abril de 2015


              O DEUS DE SPINOZA


  RECEBI DE UM GRANDE AMIGO. JOSÉ SILVEIRA DA COSTA (QUE TAMBÉM É FILÓSOFO), O SEGUINTE E-MAIL, EXPLICITANDO A CONCEPÇÃO QUE  SPINOZA TINHA DE DEUS.

        "  Pára de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que fiz para ti.

           Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa. Minha casa está nas montanhas,
nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde vivo e aí expresso meu amor por ti.

           Pára de me culpar da tua vida miserável: nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau. O sexo é
um presente que te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.

          Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos,
nos olhos de teu filho, não me encontrarás em nenhum livro!

         Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho? Pára de ter tanto medo de mim. Não te julgo, nem te critico, nem me irrito,
nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.

         Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se te fiz, te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de
incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti? Como posso te castigar por seres como és, se sou quem te fez? Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso?                     

        Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.


        Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção à tua vida, que teu estado de alerta seja
teu guia.

        Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é o único que há aqui e
agora, e o único que precisas.

        Eu te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro. Tu és
absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.

        Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho. Vive como se não o houvesse. Como se esta fosse tua única
oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei.

        E se houver, tem certeza de que não vou te perguntar se foste comportado ou não. Vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste... Do que mais
gostaste? O que aprendeste?

        Pára de crer em mim - crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti. Quero que me sintas em ti
quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.

       Pára de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja? Me aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam. Tu te sentes grato?
Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo. Te sentes olhado, surpreendido?... Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.

       Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este
mundo está cheio de maravilhas. Para que precisas de mais milagres?

       Pára que tantas explicações? Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro... aí é que estou, batendo em ti."


                   Baruch Spinoza.


Obs: não emitirei aqui nenhum juízo de valor sobre o pensamento de Spinoza, mesmo porque tentarei trazer ao meu blog outras concepções filosóficas ou teológicas sobre esse Grande Ser Supremo, que é DEUS. Deixo para o leitor pensar ou fazer seus comentários, se lhe aprouver.
Geraldo de Castro Pereira

segunda-feira, 6 de abril de 2015






 

 ONDAS DO MAR


Da relva tenra e macia,
Ali deitado a sonhar,
Contemplo, maravilhado,
As verdes ondas do mar.

Elas vão e voltam sempre!
Elas vão e voltam -, vede!
E quase sempre não param,
Como um balanço de rede.

Algumas morrem na praia
Outras vem em seu lugar.
E suas espumas brancas
Se dissolvem pelo ar.

E quando todas se encrespam,
Parece não terem medo,
Mas, logo se despedaçam
Ao encontro de um rochedo

Vem, ó brisa, levemente
Beijar as ondas do mar!
Para mim és melodia
Que não canso de escutar.

Vinde, ó ondas, vinde, marolas,
Neste vai-e-vem sem fim,
Levai pra longe a tristeza
Que mora dentro de mim!


Geraldo de Castro Pereira
(poema publicado na Coletânea "Pássaro Liberto', dos Juízes@Poetas) 
 





        
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
           Mais haikais

                   -  I -

        Um cigarro aceso:
        Um punhal furando a carne
        Deste seu pulmão.
 
  
                  -II -
       
         Numa gota d´água
         Vejo todas reunidas
         As cores do arco-íris.-
    
               - III-
         Vejo refletido
         Na janela de teus olhos
         O verde do mar.
          
             - IV -
 
       Nosso  pensamento
       Voa  nas asas do vento
       Da imaginação.
 
               - V-
        A saudade mata
       Mais do que todas as armas,
       Mais que um canhão.
 
 
                 -VI -
 
       Quebro todo o espelho
       Para não ver mais a imagem
       Do  tempo que passa..
 
                 -VII-
 
       O incêndio queimou
       A árvore da esperança,
       Só cinza restou.
 
           
    
              -VIII -


        Caí na armadilha
        Que o teu bom coração
        Preparou pra mim.
 
 
               - IX-
 
         Você, bela rosa,
         Por quanto tempo ornará
         Meu triste jardim?
 
              -X-
 
        Figuras tão lindas
        Que se formam lá no céu
        Logo se desfazem.
              
 
               -XI -
 
         A felicidade
         Passou bem perto de mim,
        Tal qual um relâmpago.
 
              



       
A I N D A   H  Á    T E M P O
 
Corri tanto contra o tempo,
Achando não haveria mais tempo
E o tempo não passava..
E eu pensando
Que se esvaía
Como fumaça.
E sempre há mais tempo.
Há mais tempo para a vida,
mais tempo para o amor,
tempo para  poesia,
mais tempo para o ócio,
mais tempo para a dor.
Mais tempo
Para o próprio tempo.

Quem inventou o tempo
Foi o ser humano,
Para medir o tempo
Que ainda temos
Para realizar intentos
Que pensamos
Não  haver mais tempo.

Mas, se o homem
Não é a medida
De todas as coisas,
(Protágoras me perdoe!)
Também não pode ser a medida
de todo o tempo na vida.
Enquanto há tempo,.
Vamos viver!



 Geraldo de Castro Pereira
 

domingo, 5 de abril de 2015





 A RAPOSA E AS UVAS


Pela fome coagida,
Vendo uma linda videira,
Dela então se  aproximou
Velha raposa matreira.

Olhou as uvas tão altas,
De comê-las desejosa.
 Mas, não podendo alcançá-las,
 falou assim, presunçosa:

“As uvas que eu estou vendo
Não me apetecem, eu juro.
Não gosto de fruto verde,
Só quero o que for maduro”.

Como lição de moral
Uma coisa vou contar:
“Sempre o soberbo despreza
O que não pode alcançar”.

                       Obs: Tradução livre de uma fábula de Fedro, que versifiquei e publiquei no meu livro "Fábulas Di-versificadas -E ditora Protexto -

    Geraldo de Castro Pereira
 
 


sábado, 4 de abril de 2015




Exorcismo

 Hoje   quero beber a noite,

Sorver os raios da lua,

exorcizar a tristeza,

Amar a beleza

De uma mulher  toda nua.

 

Hoje quero abraçar o mundo,

quero ir do copo  ao fundo

para tomar um drinque de cores,

Esparramado entre flores!

Subir até ao cume

De minha alma sofrida

E sentir o perfume
Da glória, do êstase, da vida!



Geraldo de castro Pereira