“ Quando pensamos que sabemos todas as
respostas,vem a vida e muda todas as perguntas.”
Vários poetas se manifestaram, com
versos inspirados, sobre a vida.Escolhi alguns deles.
Em primeiro lugar,
citarei um grande poeta espanhol – Calderón de la Barca, pelo qual sempre nutri
uma grande admiração:
“ ¿ Qué es la vida? – um frenesi.
Qué es la vida? – uma ilusión,
Una sombra, uma ficción,
Y el mayor bien es pequeño;
Que toda la vida es um sueño
Y los sueños sueños son!;”
Outro poeta, João de Deus, fez
estes versos lindos sobre a vida:
“ A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai;
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento
A vida é folha que cai!
A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave;
Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares
Uma após outra lançou,
A vida – pena caída -
Da asa de ave ferida –
De vale em vale impelida,
A vida o vento a levou!”
Já Shakespeare
asseverava:” Life´s but a walking shadow
“- A vida é apenas uma sombra que
caminha. -
Como vemos, o
poeta, embora seja ”um fingidor”, no dizer de Fernando Pessoa, não é tão nefelibata assim, vivendo apenas
nas nuvens. Tem também os pés no chão. Em seus poemas, fala muitas verdades, com uma
visão clara e realista da vida, embora se expressando de forma poética.
No conceito de
Aristóteles, a vida é um constante movimento de aperfeiçoamento. E citando mais
uma vez Fernando Pessoa, “ tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”.
E a que me
proponho aqui para finalizar esta autobiografia? Quero fazer uma revisão
crítica sobre a vida e a morte. Estou até hoje em busca de um sentido para a
vida e uma explicação para a morte.
Enfim, quero fazer uma balanço de minha vida. E as perguntas surgem aos
borbotões: o quê fiz da minha vida, esse
dom tão precioso que Deus me deu? E o
quê poderei fazer ainda? Quais exemplos
de vida vou deixar para meu filho, para meus familiares e para meus amigos?
Será que passei pela vida e não vivi? Lembram-se do conhecido poema de
Francisco Otaviano?
“ Quem passou pela vida em
brancas nuvens,
E em plácido repouso adormeceu,
quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espectro de homem, não foi
homem.
Só passou pela vida -. não
viveu!.”
A vida para ser bem vivida
tem que ser compartilhada. Já Sêneca dizia; ¨De que me serve a geometria para
dividir o campo se não sei compartilhá-lo com meu irmão?¨-
Não podemos viver como os
hedonistas e os epicuristas, cujo Deus
está no ventre. - Cuius Deus venter est
- Eles apregoavam:”comamus et bibamus, cras moriemur’– Vamos comer e beber,
porque amanhã poderemos morrer¨”.
Muita gente também vive escrava do
dinheiro, dele fazendo também seu Deus.
Sei que tive uma infância e uma
juventude bem sofridas.Lutei muito para ter um lugar ao sol. Mas, não posso
deixar o vil metal me escravizar. Nas
palavras de Ghandi, “grande parte da miséria que aflige o mundo é conseqüência
da avidez”.
Já procurei ajudar a meus
familiares e a outras pessoas. Quero ainda fazer mais.
Quero viver da melhor maneira
possível meus últimos anos de existência.
Estamos aqui de passagem. Não levamos para o túmulo nada de riqueza.
Tudo fica aqui. Temos de dar um sentido para nossa vida. Não somos animais
irracionais, mas seres pensantes.
A velhice é o outono da vida,
como disse Cícero. E estou envelhecendo e quero fazê-lo com dignidade. A
sabedoria é o tono ético da senectude. Sei que a solidão se torna um dos
ingredientes inexoráveis da velhice. Perdemos muitos dos nossos amigos, colegas, familiares, vizinhos.
E envelhecer significa uma
aproximação da morte. Ninguém fica para semente. E durante toda a nossa vida estamos aprendendo a morrer. Como diz Mahatma Ghandi: “ a vida e morte são
as duas faces da mesma moeda”.
Não sei quanto tempo de vida
ainda me resta. Não importa. Quero viver
cada dia da vida como se fosse o último. Não se pode negociar com a morte,
pois, no dizer de Otto Lara Rezende
”a morte é a única coisa insubornável.”
Não sou muito religioso, mas
tenho minhas raízes fincadas na religião católica. Costumo ir à missa aos
domingos. Perdi muito aquela crença adquirida no Seminário. Gosto, porém, de
repetir um cântico baseado num salmo e adaptado para canto nas Igrejas: “ O
Senhor é meu Pastor; nada me pode faltar: O Senhor é o Pastor que me conduz, nada me falta; é nos prados da relva mais fresca que me faz
descansar; junto a mim teu bastão e teu
cajado, eles são o meu conforto.”
Também, quando criança, rezava
para meu anjo da guarda e ainda o faço, à noite, antes de dormir, assim::“
Santo Anjo do senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, guarda, ,
governa e ilumina. Amém.” E gosto também
de repetir a frase: “Se Deus está comigo, quem irá contra mim? “
Agradeço, humildemente, a Deus
pela vida que me deu, esse dom tão precioso e inalienável. Eu sou um vitorioso desde a concepção. Afinal, venci uma corrida de milhões de espermatozóides para poder
nascer. Errei muito na vida, mas também acertei em alguma coisa.: é só fazer
uma retrospectiva de minha vida. Sou de origem humilde, sim. Era um caipirinha
do mato, filho de pais pobres e lutadores, porém honestos.
Agradeço também e muito aos
padres do Seminário Claretiano, onde passei quase dez anos de minha vida. Lá
obtive muitos ensinamentos. Se consegui
estudar e vencer na vida, muito
devo aos mestres religiosos daquele educandário. Obrigado a todos eles.
Devo também a minha educação a
meus pais. Bem ou mal, eles me ensinaram muito com o exemplo da vida deles, com
muita honestidade e trabalho. E foram
eles que me encaminharam para o colégio interno.
Mas, a quem devo tudo mesmo é a
Deus; sem Deus não somos nada. Muito
obrigado, meu Deus!
E ao meu santo de devoção, São
Geraldo, peço sempre sua proteção!
Ainda continuarei minha caminhada neste vale de lágrimas e
também de alegrias.
Ao ensejo, quero ainda pedir perdão a
todos aqueles que se sentiram prejudicados por mim, principalmente, aos meus
amigos, colegas de magistratura, aos servidores que trabalharam comigo, aos
advogados, aos jurisdicionados e aos meus familiares; também perdôo a todos aqueles que me causaram algum
dano, seja a que título for. Agradeço, de coração, a todos meus amigos com quem
eu convivi e nos locais onde funcionei como Juiz,
como advogado e como simples cidadão e peço a Deus longa vida para
todos eles, com muita paz e saúde. Não irei declinar seus nomes aqui, com receio de omissão que
certamente sucederá.
Para meu filho e parentes quero
deixar o exemplo de lutas: uma batalha
pela minha própria sobrevivência e também em prol dos menos favorecidos;
vencer na vida, sim, porém com
honestidade e dignidade.
O que escrevi e vivi até agora não
é o canto do cisne. Almejo cumprir ainda
muitas metas de vida, realizar muitos sonhos inacabados, porque o dia em
que o homem parar de sonhar, ele estará morto. Eu dependo de muita gente e
muita gente de mim depende. Minha missão ainda não terminou. Ainda verei muitas
tristezas e muitas alegrias, muitas saudades, prazeres e dores; ainda
continuarei a ver o nascer e o pôr do sol;
ainda encontrarei novos amigos e mais amores; e no meio das urzes ainda
brotarão flores. Não quero fazer da vida uma simples quimera! Haverá sempre a esperança, porque a vida é o
hoje e será o amanhã no despertar da primavera!
Quero continuar lutando até o
fim, pois, nas palavras de Charlie Chaplin, “ a vida é uma peça de teatro que
não permite ensaio. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente
antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.”“
Por fim, pretendo completar
minha missão neste mundo, para, só depois, (quem sabe?), exclamar como o Apóstolo
São Paulo: “ bonum certamern certavi, cursum consumavi, fidem non perdidi –
combati o bom combate, cheguei ao fim e não perdi a fé!”
GERALDO DE CASTRO PEREIRA