terça-feira, 31 de março de 2015




 
OUVIR ESTRELAS

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

 
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas


Olavo Bilac




 

E agora, José?
A festa acabou,
A luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio
e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
Poema de Carlos Drumond de Andrade -





    BEIJA-FLOR 








Oh, avezinha  formosa,
Voa, airosa,
Por estas verdes campinas.
Voa nas brisas aladas,
Perfumadas,
Para beijar as boninas.

Nas tuas asas faceiras
Tão ligeiras,
Vais levando a fulgurar
Cintilações das estrelas
Que, ao vê-las,
Quase me fazem cegar.

Quando rompe a madrugada,
Na galhada
Contemplo-te, a cismar,.
Pareces uma açucena
Tão pequena
paralisada no ar.

E quando ali eu te vejo
Com teu  beijo
Sugando o mel, com ardor,
Penso que és  uma rosa
Tão vaidosa,
Osculando outra flor!

Autor:  Geraldo de Castro Pereira

segunda-feira, 30 de março de 2015



LASCIATE OGNI SPERANZA



Subi no batel da vida.
Remando, remando sem cessar.
Apenas via o céu e o mar.
A lua fascinante brilhava,
Lançando em meu rosto
A poeira de seus raios.

E eu seguia em frente,
Cantando e ouvindo
Em ritmo acelerado
Músicas do passado
De uma orquestra invisível.

De repente,
Tudo emudeceu.
Vi-me soçobrando
Num báratro sem fundo.

Negra mão cobriu-me o rosto;
Escorreu-se-me um suor frio.
Depois de um calafrio,
Meus olhos se destamparam

E uma visão dantesca,
Como um fantasma macabro,
Dançou à minha frente
Dizendo-me assim mesmo:
‘Deixa toda a esperança,.
E a tudo dê adeus”.


Geraldo de Castro Pereira
.



                   Ontem postei um poema de Francisco de Quevedo, satirizando o grande nariz  do seu colega escritor, Luiz de Góngora. Hoje, estou publicando  também os versos do famoso escritor de Portugal, José Maria  de Barbosa du Bocage, sobre o mesmo tema: nariz comprido.



                        Bocage nasceu  em Setúbal - Portugal em 1765 e faleceu em  1805, Era considerado um dos maiores representantes do arcadismo português. 


Nariz, nariz, e nariz


Nariz, nariz, e nariz,
Nariz, que nunca se acaba;
Nariz, que se ele desaba,
Fará o mundo infeliz;
Nariz, que Newton não quis
Descrever-lhe a diagonal;
Nariz de massa infernal,
Que, se o cálculo não erra,
Posto entre o Sol e a Terra,
Faria eclipse total!










domingo, 29 de março de 2015


EU QUERIA
Me tornar submisso
Aos teus caprichos.
Permanecer sob tua sombra,
Sorrir quando sorrires,
Chorar quando chorares,
Amparando tuas lágrimas
Com a concha das minhas mãos.

Sofrer quando sofreres,
Cantar quando cantares,
Dançar quando dançares,
Dormir quando dormires
E despertarmo-nos juntos
Após uma noite de amores.

Ficar triste com tua tristeza,
E alegrar-me com tua alegria,
Tornar-me teu anjo da guarda
Para seguir teus passos
Por onde fores,
Por onde agires,
Por onde suspirares.
Enfim, fundir-me em ti
Numa única pessoa,
Como verdadeiros xifópagos.



Geraldo de Castro Pereira

              
 
                 Francisco de Quevedo;
                 Grande escritor espanhol, da escola barroca, nascido em Madri em 1580 e falecido em 1606. Como poeta, era  também satírico, como se vê do poema abaixo, criticando um homem de nariz grande, homem esse que, na verdade, se tratava de outro famoso escritor, Luis de Góngora.
Esta é a segunda versão do poema, traduzido para o português por José Carlos Costa Pinto.
 
Érase un hombre a una nariz pegado,
érase una nariz superlativa,
érase una nariz sayón y escriba,
érase un peje espada muy barbado;
 

era un reloj de sol mal encarado,
5
érase una alquitara pensativa,
érase un elefante boca arriba,
era Ovidio Nasón más narizado.
 
Érase un espolón de una galera,
érase una pirámide de Egito,
10
las doce tribus de narices era;
Érase un naricísimo infinito,
frisón archinariz, caratulera
sabañón garrafal, morado y frito.
 
 
Era um homem a um nariz pegado,
Era um nariz superlativo,
Era um alambique meio vivo,
Era um peixe espada mal barbeado;

Era um relógio de sol mal encarado,
Era boca acima um elefante,
Era um nariz brigão e escrevente,
Um Ovídio Nasón mal narigado.

Era o esporão de uma galera,
Era uma pirâmide do Egipto,
As doze tribos de narizes era;

Era um naricíssimo infinito,
Enorme arquinariz, carranca fera,
Inchaço garrafal, purpúreo e frito.

(Tradução de José Carlos Costa Pinto)

 

 

sábado, 28 de março de 2015


Aviso da Des. Mônica Sette Lopes, do TRT da Terceira Região:
     
Pessoal, os juízespoet@s estarão lançando com uma apresentação no dia 09 de abril de 2015, às 18 horas, no auditório do TRT-MG (Avenida Getúlio Vargas, 225 – 8º andar - Funcionários – BH/MG) o livro Pássaro Liberto em homenagem ao nosso querido colega Paulo Merçon.
Foi um trabalho muito emocionado de todo o grupo e estamos felizes de apresentar o resultado.
Gostaríamos de compartilhá-lo com todos vcs.
 · 2
  •  
    Geraldo Pereira Pereira Atenção, colegas, servidoras e servidores do TRT17a: a Desemb.. Maria Francisca Lacerda (aposentada), Juiz Ney Pimenta, Juiz Roberto Almada e eu estamos participando, como co-autores,da Coletânea "Pássaro Liberto', cujo lançamento está sendo anunciado para o dia 9 de abril em Belo Horizonte-MG, como se vê acima.Todos estão convidados.
  •  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 





                          
Velho Tema

Vicente de Carvalho


Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

              CONFIANÇA

     
    
Um menino num avião
Viajava tranquilinho.
Lia seu livro de histórias,
Sem ligar para o vizinho

De vez em quando ele olhava
A paisagem na janela,
Admirando uma nuvem
Que lhe parecia bela.

De repente, um solavanco
Fez o avião balançar.
E o menino simplesmente
Nem se mexeu do lugar.

E mais outra sacudida.
E a criança tão segura!
Parecia que o avião
Estava perdendo altura.

O passageiro do lado,
Quase morrendo de medo,
Interrompeu o menino
Que estava sereno e quedo.

 “Por que você está calmo,
e nem sequer diz um ai?”
O menino respondeu :
“porque o piloto é meu pai!”.

(Poema baseado numa mensagem enviada por uma amiga)
Geraldo de Castro Pereira

sexta-feira, 27 de março de 2015






S A U D A D E


Escrevi SAUDADE na areia,
mas veio a maré cheia
e varreu minha palavra.
Escrevi SAUDADE na pedra,
Mas veio a chuva,
Solapando-a devagar,
Escrevi SAUDADE no vento,
Mas desapareceu num furacão violento.
Escrevi SAUDADE na nuvem,
E com a nuvem se dissipou.
Escrevi SAUDADE num papel
E joguei-o no rio.
Veio a corrente e o levou.
Escrevi SAUDADE nas estrelas,
Mas caiu no buraco negro.
Escrevi SAUDADE no cérebro
E dela me esqueci.
Escrevi SAUDADE no coração,
E nem o tempo a destruiu.

GERALDO DE CASTRO PEREIRA

Transcrevo aqui o lindo poema de Mário Quintana:


 O LAÇO E O ABRAÇO

Autor: Mário Quintana

Meu Deus! Como é engraçado!
Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço... uma fita dando voltas.
Enrosca-se, mas não se embola, vira, revira, circula e pronto: está dado o laço.
É assim que é o abraço: coração com coração, tudo isso cercado de braço.

É assim que é o laço: um abraço no presente, no cabelo,
no vestido, em qualquer coisa onde o faço.
E quando puxo uma ponta, o que é que acontece? Vai escorregando...
devagarzinho, desmancha, desfaz o abraço.

Solta o presente, o cabelo, fica solto no vestido.
E, na fita, que curioso, não faltou nem um pedaço.
Ah! Então, é assim o amor, a amizade.
Tudo que é sentimento. Como um pedaço de fita.

Enrosca, segura um pouquinho, mas pode se desfazer a qualquer hora,
deixando livre as duas bandas do laço.
Por isso é que se diz: laço afetivo, laço de amizade.
E quando alguém briga, então se diz: romperam-se os laços.

E saem as duas partes, igual meus pedaços de fita, sem perder nenhum pedaço.
Então o amor e a amizade são isso...
Não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam.
Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço!"

 

quinta-feira, 26 de março de 2015



                    S E L E N I T A


Queria ser um selenita,
Para habitar na lua.
Lá, com certeza,
Não existe chibata
para me bater na vida.
Lá terei a amizade de São Jorge.
Eu cuidaria do cavalo dele,
Alimentando-o todo o dia
com flocos de nuvem.
De São Jorge seria o escudeiro
Como Sancho Panza
De Don Quixote guerreiro...

Lá terei tempo para viver
E meditar sobre as pessoas,
Tristes ou alegres,
Vivas ou moribundas,
Ricas ou pobres
De todas as raças,
E de todas as cores,
Separando os ódios
Dos verdadeiros amores.

Lá eu queria morar,
Pois teria uma visão
Mais panorâmica
Da nossa terra.
Poderia prever os furacões,
Prevenir os vendavais,
Terremotos e maremotos.
Avisando aos terráqueos dos perigos.

De lá poderia apontar
Os inimigos da natureza,
Como os poluidores dos nossos rios,
Desmatadores das florestas.,
Dizimadores de nossa fauna

Na lua com certeza será um lugar
Mais tranqüilo e aprazível
Que a “Pasárgada” de Manuel Bandeira,
Onde poderei estender minha rede,
Ficar mais desperto,
Para ver bem de perto
O brilho de minhas estrelas!

quarta-feira, 25 de março de 2015


C R U Z E S D A VIDA

C R U Z
Cruzando as cruzes
Da grande cruz
Da minha vida..
Vejo tudo em forma de cruz.
Cruz nas estradas porque alguém morreu
Cruz nos céus, quando um relâmpago se benzeu
Cruz nas necrópoles,
Cruz nas metrópoles,
cruz nas igrejas,
nos campos de guerra,.
Cruz no peito das pessoas,.
Cruz no alto da serra.
Quando abrimos.
Nossos braços,
Mendigando abraços,
Formamos uma cruz.
Cruz de seres
Desesperançados,
Sedentos de luz..

Geraldo de Castro Pereira

terça-feira, 24 de março de 2015

MEU PRANTO

Quero sorver meu pranto
Para que ninguém mais veja
Que nesta vida triste
Eu chorei tanto.

Quero espremer meu coração
Para que todas as lágrimas
Se escoam pelas minhas faces
Já tão descoradas.

Quero só alegria,
E que meus sorrisos
Sempre encontrem
No meu rosto
Sulcos de rugas
Cavadas
Pelo tempo vivido.

Não quero dores,
Nem sofrimentos.
Quero apenas
Sentimentos-
Os mais positivos possíveis.

Quero viver todos os meus dias
Como se fossem os últimos
De minha existência.!

Alijar o ódio,
Alijar a inveja,
Alijar a intriga,
Alijar a ambição,
Plantando só puras idéias
E melopéias
No meu coração.

Enfim, afastar o pranto,
Abraçar o alegre canto
De uma  vida

Sem ilusão
Ser como as velhas árvores
que, se não dão mais frutos,
Dão sombras para todos..

E a Vida Continua...

 
                                                “ Quando pensamos que sabemos todas as  

                                                   respostas,vem a vida e muda todas as perguntas.”
 
                    Vários poetas se manifestaram, com versos inspirados, sobre a vida.Escolhi alguns deles.

                    Em primeiro lugar, citarei um grande poeta espanhol – Calderón de la Barca, pelo qual sempre nutri uma grande admiração:

 
“ ¿ Qué es la vida? – um frenesi.
Qué  es la vida? – uma ilusión,

Una sombra, uma ficción,

Y el mayor bien es pequeño;
Que toda la vida  es um sueño

Y los sueños sueños son!;”

 
                    Outro poeta, João de Deus, fez estes versos lindos  sobre a vida:

“ A vida é o dia de hoje,

A vida é ai que mal  soa,

A vida é sombra que foge,

A vida é nuvem que voa;

 
A vida é sonho  tão leve

Que se desfaz como a neve

E como o fumo se esvai;

 
A vida dura um momento,

Mais leve que o pensamento,

A vida leva-a o vento

A vida é folha que cai!

 
A vida é flor na corrente,

A vida é sopro suave,

A vida é estrela cadente,

Voa mais leve que a ave;

 
Nuvem que o vento nos ares,

Onda que o vento nos mares

Uma após outra lançou,

A vida – pena caída -

Da asa de ave ferida –

De vale em vale impelida,

A vida o vento a levou!”

 
                    Já Shakespeare asseverava:” Life´s but a  walking  shadow  “-  A vida é apenas uma sombra que caminha. -
                     Como vemos, o poeta, embora seja ”um fingidor”, no dizer de Fernando Pessoa,  não é tão nefelibata assim, vivendo apenas nas nuvens.  Tem também  os pés no chão.  Em seus poemas, fala muitas verdades, com uma visão clara e realista da vida, embora se expressando de forma poética.

                     No conceito de Aristóteles, a vida é um constante movimento de aperfeiçoamento. E citando mais uma vez Fernando Pessoa, “ tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”.

                     E a que me proponho aqui para finalizar esta autobiografia? Quero fazer uma revisão crítica sobre a vida e a morte. Estou até hoje em busca de um sentido para a vida e uma explicação para a morte.  Enfim, quero fazer uma balanço de minha vida. E as perguntas surgem aos borbotões: o quê fiz  da minha vida, esse dom tão precioso que Deus me deu?  E o quê poderei  fazer ainda? Quais exemplos de vida vou deixar para meu filho, para meus familiares e para meus amigos? Será que passei pela vida e não vivi? Lembram-se do conhecido poema de Francisco Otaviano?

“ Quem passou pela vida em brancas nuvens,

E em plácido repouso adormeceu,

quem  não sentiu o frio da desgraça,

Quem passou pela vida e não  sofreu,

Foi espectro de homem, não foi homem.

Só passou pela vida  -. não  viveu!.”
 
                    A vida para ser bem vivida tem que ser compartilhada. Já Sêneca dizia; ¨De que me serve a geometria para dividir o campo se não sei compartilhá-lo com meu irmão?¨-

                   Não podemos viver como os hedonistas e os epicuristas, cujo  Deus está no ventre. - Cuius  Deus venter est - Eles apregoavam:”comamus et bibamus, cras moriemur’– Vamos comer e beber, porque amanhã poderemos morrer¨”.

                    Muita gente também vive escrava do dinheiro, dele fazendo também seu Deus.

                    Sei que tive uma infância e uma juventude bem sofridas.Lutei muito para ter um lugar ao sol. Mas, não posso deixar o vil metal  me escravizar. Nas palavras de Ghandi, “grande parte da miséria que aflige o mundo é conseqüência da avidez”.

                   Já procurei ajudar a meus familiares e a outras pessoas. Quero ainda fazer mais.
                   Quero viver da melhor maneira possível meus últimos anos de existência.  Estamos aqui de passagem. Não levamos para o túmulo nada de riqueza. Tudo fica aqui. Temos de dar um sentido para nossa vida. Não somos animais irracionais, mas seres pensantes.

                   A velhice é o outono da vida, como disse Cícero. E estou envelhecendo e quero fazê-lo com dignidade. A sabedoria é o tono ético da senectude. Sei que a solidão se torna um dos ingredientes inexoráveis da velhice. Perdemos muitos dos nossos amigos,   colegas, familiares, vizinhos.
                    E envelhecer significa uma aproximação da morte. Ninguém fica para semente. E durante toda a nossa  vida estamos aprendendo a morrer.  Como diz Mahatma Ghandi: “ a vida e morte são as duas faces  da mesma moeda”.

                    Não sei quanto tempo de vida ainda me resta.  Não importa. Quero viver cada dia da vida como se fosse o último. Não se pode negociar com a morte, pois, no  dizer de Otto Lara Rezende ”a  morte é a única coisa insubornável.”

                    Não sou muito religioso, mas tenho minhas raízes fincadas na religião católica. Costumo ir à missa aos domingos. Perdi muito aquela  crença  adquirida no Seminário. Gosto, porém, de repetir um cântico baseado num salmo e adaptado para canto nas Igrejas: “ O Senhor é meu Pastor; nada me pode faltar: O Senhor é o Pastor que me conduz,  nada me falta; é nos prados  da relva mais fresca que me faz descansar;   junto a mim teu bastão e teu cajado, eles são o meu conforto.”
                    Também, quando criança, rezava para meu anjo da guarda e ainda o faço, à noite, antes de dormir, assim::“ Santo Anjo do senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou  a piedade divina, sempre me rege, guarda, , governa e ilumina. Amém.”  E gosto também de repetir a frase: “Se Deus está comigo, quem irá contra mim? “

                   Agradeço, humildemente, a Deus pela vida que me deu, esse dom tão precioso e inalienável.  Eu sou um vitorioso desde  a concepção. Afinal, venci uma corrida  de milhões de espermatozóides para poder nascer. Errei muito na vida, mas também acertei em alguma coisa.: é só fazer uma retrospectiva de minha vida. Sou de origem humilde, sim. Era um caipirinha do mato, filho de pais pobres e lutadores, porém honestos.
                     Agradeço também e muito aos padres do Seminário Claretiano, onde passei quase dez anos de minha vida. Lá obtive muitos ensinamentos. Se consegui  estudar e  vencer na vida, muito devo aos mestres religiosos daquele educandário.  Obrigado a todos eles.

                     Devo também a minha educação a meus pais. Bem ou mal, eles me ensinaram muito com o exemplo da vida deles, com muita honestidade e trabalho.   E foram eles que me encaminharam para o colégio interno.
                    Mas, a quem devo tudo mesmo é a Deus;  sem Deus não somos nada. Muito obrigado, meu Deus!

                      E ao meu santo de devoção, São Geraldo,  peço sempre sua proteção!
                     Ainda continuarei  minha caminhada neste vale de lágrimas e também de alegrias.

                     Ao ensejo, quero ainda pedir perdão a todos aqueles que se sentiram prejudicados por mim, principalmente, aos meus amigos, colegas de magistratura, aos servidores que trabalharam comigo, aos advogados, aos jurisdicionados e aos meus familiares; também  perdôo a todos aqueles que me causaram algum dano, seja a que título for. Agradeço, de coração, a todos meus amigos com quem eu convivi  e  nos locais onde funcionei  como Juiz,  como advogado e como simples cidadão e peço a Deus longa vida para todos eles, com muita paz e saúde. Não irei declinar seus nomes aqui,  com receio de omissão  que  certamente sucederá.
                     Para meu filho e parentes quero deixar o exemplo de lutas: uma batalha  pela minha própria sobrevivência e também em prol dos menos favorecidos; vencer na vida, sim, porém  com honestidade e dignidade.

                     O que escrevi e vivi até agora não é o canto do cisne. Almejo cumprir ainda  muitas metas de vida, realizar muitos sonhos inacabados, porque o dia em que o homem parar de sonhar, ele estará morto. Eu dependo de muita gente e muita gente de mim depende. Minha missão ainda não terminou. Ainda verei muitas tristezas e muitas alegrias, muitas saudades, prazeres e dores; ainda continuarei a ver o nascer e o pôr do sol;  ainda encontrarei novos amigos e mais amores; e no meio das urzes ainda brotarão flores. Não quero fazer da vida uma simples quimera!  Haverá sempre a esperança, porque a vida é o hoje e será o amanhã no despertar da primavera!
                     Quero continuar lutando até o fim, pois, nas palavras de Charlie Chaplin, “ a vida é uma peça de teatro que não permite ensaio. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.”“

                     Por fim, pretendo completar minha missão neste mundo, para, só depois, (quem sabe?), exclamar como o Apóstolo São Paulo: “ bonum certamern certavi, cursum consumavi, fidem non perdidi – combati o bom combate, cheguei ao fim e não perdi a fé!”
 
GERALDO DE CASTRO PEREIRA