terça-feira, 24 de março de 2015

E a Vida Continua...

 
                                                “ Quando pensamos que sabemos todas as  

                                                   respostas,vem a vida e muda todas as perguntas.”
 
                    Vários poetas se manifestaram, com versos inspirados, sobre a vida.Escolhi alguns deles.

                    Em primeiro lugar, citarei um grande poeta espanhol – Calderón de la Barca, pelo qual sempre nutri uma grande admiração:

 
“ ¿ Qué es la vida? – um frenesi.
Qué  es la vida? – uma ilusión,

Una sombra, uma ficción,

Y el mayor bien es pequeño;
Que toda la vida  es um sueño

Y los sueños sueños son!;”

 
                    Outro poeta, João de Deus, fez estes versos lindos  sobre a vida:

“ A vida é o dia de hoje,

A vida é ai que mal  soa,

A vida é sombra que foge,

A vida é nuvem que voa;

 
A vida é sonho  tão leve

Que se desfaz como a neve

E como o fumo se esvai;

 
A vida dura um momento,

Mais leve que o pensamento,

A vida leva-a o vento

A vida é folha que cai!

 
A vida é flor na corrente,

A vida é sopro suave,

A vida é estrela cadente,

Voa mais leve que a ave;

 
Nuvem que o vento nos ares,

Onda que o vento nos mares

Uma após outra lançou,

A vida – pena caída -

Da asa de ave ferida –

De vale em vale impelida,

A vida o vento a levou!”

 
                    Já Shakespeare asseverava:” Life´s but a  walking  shadow  “-  A vida é apenas uma sombra que caminha. -
                     Como vemos, o poeta, embora seja ”um fingidor”, no dizer de Fernando Pessoa,  não é tão nefelibata assim, vivendo apenas nas nuvens.  Tem também  os pés no chão.  Em seus poemas, fala muitas verdades, com uma visão clara e realista da vida, embora se expressando de forma poética.

                     No conceito de Aristóteles, a vida é um constante movimento de aperfeiçoamento. E citando mais uma vez Fernando Pessoa, “ tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”.

                     E a que me proponho aqui para finalizar esta autobiografia? Quero fazer uma revisão crítica sobre a vida e a morte. Estou até hoje em busca de um sentido para a vida e uma explicação para a morte.  Enfim, quero fazer uma balanço de minha vida. E as perguntas surgem aos borbotões: o quê fiz  da minha vida, esse dom tão precioso que Deus me deu?  E o quê poderei  fazer ainda? Quais exemplos de vida vou deixar para meu filho, para meus familiares e para meus amigos? Será que passei pela vida e não vivi? Lembram-se do conhecido poema de Francisco Otaviano?

“ Quem passou pela vida em brancas nuvens,

E em plácido repouso adormeceu,

quem  não sentiu o frio da desgraça,

Quem passou pela vida e não  sofreu,

Foi espectro de homem, não foi homem.

Só passou pela vida  -. não  viveu!.”
 
                    A vida para ser bem vivida tem que ser compartilhada. Já Sêneca dizia; ¨De que me serve a geometria para dividir o campo se não sei compartilhá-lo com meu irmão?¨-

                   Não podemos viver como os hedonistas e os epicuristas, cujo  Deus está no ventre. - Cuius  Deus venter est - Eles apregoavam:”comamus et bibamus, cras moriemur’– Vamos comer e beber, porque amanhã poderemos morrer¨”.

                    Muita gente também vive escrava do dinheiro, dele fazendo também seu Deus.

                    Sei que tive uma infância e uma juventude bem sofridas.Lutei muito para ter um lugar ao sol. Mas, não posso deixar o vil metal  me escravizar. Nas palavras de Ghandi, “grande parte da miséria que aflige o mundo é conseqüência da avidez”.

                   Já procurei ajudar a meus familiares e a outras pessoas. Quero ainda fazer mais.
                   Quero viver da melhor maneira possível meus últimos anos de existência.  Estamos aqui de passagem. Não levamos para o túmulo nada de riqueza. Tudo fica aqui. Temos de dar um sentido para nossa vida. Não somos animais irracionais, mas seres pensantes.

                   A velhice é o outono da vida, como disse Cícero. E estou envelhecendo e quero fazê-lo com dignidade. A sabedoria é o tono ético da senectude. Sei que a solidão se torna um dos ingredientes inexoráveis da velhice. Perdemos muitos dos nossos amigos,   colegas, familiares, vizinhos.
                    E envelhecer significa uma aproximação da morte. Ninguém fica para semente. E durante toda a nossa  vida estamos aprendendo a morrer.  Como diz Mahatma Ghandi: “ a vida e morte são as duas faces  da mesma moeda”.

                    Não sei quanto tempo de vida ainda me resta.  Não importa. Quero viver cada dia da vida como se fosse o último. Não se pode negociar com a morte, pois, no  dizer de Otto Lara Rezende ”a  morte é a única coisa insubornável.”

                    Não sou muito religioso, mas tenho minhas raízes fincadas na religião católica. Costumo ir à missa aos domingos. Perdi muito aquela  crença  adquirida no Seminário. Gosto, porém, de repetir um cântico baseado num salmo e adaptado para canto nas Igrejas: “ O Senhor é meu Pastor; nada me pode faltar: O Senhor é o Pastor que me conduz,  nada me falta; é nos prados  da relva mais fresca que me faz descansar;   junto a mim teu bastão e teu cajado, eles são o meu conforto.”
                    Também, quando criança, rezava para meu anjo da guarda e ainda o faço, à noite, antes de dormir, assim::“ Santo Anjo do senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou  a piedade divina, sempre me rege, guarda, , governa e ilumina. Amém.”  E gosto também de repetir a frase: “Se Deus está comigo, quem irá contra mim? “

                   Agradeço, humildemente, a Deus pela vida que me deu, esse dom tão precioso e inalienável.  Eu sou um vitorioso desde  a concepção. Afinal, venci uma corrida  de milhões de espermatozóides para poder nascer. Errei muito na vida, mas também acertei em alguma coisa.: é só fazer uma retrospectiva de minha vida. Sou de origem humilde, sim. Era um caipirinha do mato, filho de pais pobres e lutadores, porém honestos.
                     Agradeço também e muito aos padres do Seminário Claretiano, onde passei quase dez anos de minha vida. Lá obtive muitos ensinamentos. Se consegui  estudar e  vencer na vida, muito devo aos mestres religiosos daquele educandário.  Obrigado a todos eles.

                     Devo também a minha educação a meus pais. Bem ou mal, eles me ensinaram muito com o exemplo da vida deles, com muita honestidade e trabalho.   E foram eles que me encaminharam para o colégio interno.
                    Mas, a quem devo tudo mesmo é a Deus;  sem Deus não somos nada. Muito obrigado, meu Deus!

                      E ao meu santo de devoção, São Geraldo,  peço sempre sua proteção!
                     Ainda continuarei  minha caminhada neste vale de lágrimas e também de alegrias.

                     Ao ensejo, quero ainda pedir perdão a todos aqueles que se sentiram prejudicados por mim, principalmente, aos meus amigos, colegas de magistratura, aos servidores que trabalharam comigo, aos advogados, aos jurisdicionados e aos meus familiares; também  perdôo a todos aqueles que me causaram algum dano, seja a que título for. Agradeço, de coração, a todos meus amigos com quem eu convivi  e  nos locais onde funcionei  como Juiz,  como advogado e como simples cidadão e peço a Deus longa vida para todos eles, com muita paz e saúde. Não irei declinar seus nomes aqui,  com receio de omissão  que  certamente sucederá.
                     Para meu filho e parentes quero deixar o exemplo de lutas: uma batalha  pela minha própria sobrevivência e também em prol dos menos favorecidos; vencer na vida, sim, porém  com honestidade e dignidade.

                     O que escrevi e vivi até agora não é o canto do cisne. Almejo cumprir ainda  muitas metas de vida, realizar muitos sonhos inacabados, porque o dia em que o homem parar de sonhar, ele estará morto. Eu dependo de muita gente e muita gente de mim depende. Minha missão ainda não terminou. Ainda verei muitas tristezas e muitas alegrias, muitas saudades, prazeres e dores; ainda continuarei a ver o nascer e o pôr do sol;  ainda encontrarei novos amigos e mais amores; e no meio das urzes ainda brotarão flores. Não quero fazer da vida uma simples quimera!  Haverá sempre a esperança, porque a vida é o hoje e será o amanhã no despertar da primavera!
                     Quero continuar lutando até o fim, pois, nas palavras de Charlie Chaplin, “ a vida é uma peça de teatro que não permite ensaio. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.”“

                     Por fim, pretendo completar minha missão neste mundo, para, só depois, (quem sabe?), exclamar como o Apóstolo São Paulo: “ bonum certamern certavi, cursum consumavi, fidem non perdidi – combati o bom combate, cheguei ao fim e não perdi a fé!”
 
GERALDO DE CASTRO PEREIRA

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