sábado, 4 de abril de 2015



Haikai:
para quem não sabe, haikai é uma poesia de origem japonesa, composta de uma estrofe com versos de cinco, sete e cinco sílabas. Aqui estou postando alguns haikais de minha autoria. Depois, pubicarei mais, se gostarem.


Ei-los:



Um sol causticante:
Um homem bebendo o suor
Que escorre do corpo.




Uma lua nova:
Foice limpando o jardim
Do céu azulado



Eis que o vaga-lume
Numa grande escuridão
Acende seu lume.




Um fósforo aceso:
Em pouco tempo um incêndio
Engole a floresta.




No alto da favela
Duma bandeirinha branca
Pinga muito sangue..





Barco da esperança,
Por que tão lento vais singrando
Distante de mim?




Eu quero beijar
A mais formosa das rosas:
espinhos não deixam.




Comigo subiste
Num pé de jabuticaba:
Preferi teus olhos.



A vida é batalha
Equilibra-se num fio
Da afiada navalha,



Seca nordestina:
Um homem espremendo a água
Da folha do cacto.








AMOR

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo amor?

Luiz Vaz de Camões -

sexta-feira, 3 de abril de 2015





               
O PAVÃO A JUNO 

Um pavão se queixou , aborrecido,
Toda a vez que tentava um trinado.
Pois, muitas aves dele escarneciam,
Dizendo ser melhor ficar calado.

O pavão foi até  à deusa Juno
Pedir-lhe uma voz maravilhosa..
Mas, a deusa, usando o seu saber,
Foi falando, tranqüila e majestosa:

“Tens as penas mais belas que eu já vi,
Formosura tu tens, ó filho amado!
Uma cauda de plumas bem pintadas,
E um pomposo pescoço bem talhado.

E o pavão, mesmo assim inconformado,
Reclamou:: de que adianta ser galante?
Pois muda é a beleza! O que eu queria
É ter mesmo uma voz linda e possante.

Juno, com muita paciência , disse:
“Foram distribuídos entre vós
Os dons pra cada  um: a violência à águia
E para o rouxinol a bela voz;

Para ti os encantos da beleza,
Para a gralha os presságios assombrados.
O agouro para o corvo tão sinistro.
Menos tu, estão todos conformados”

O conselho tirado desta fábula
Nós devemos usá-lo sem receios:
“ Se pra nós muitos dons nos foram dados,
Para que cobiçarmos bens alheios?”

 Esta fábula de Fedro foi traduzida do latim e versificada por mim.
Faz parte do meu livro "Fábulas Di-versificadas", publicada pela Editora Protexto, ora à venda naquela Editora. É só clicar em "livraria" para maiores detalhes. Geraldo de Castro Pereira

quinta-feira, 2 de abril de 2015





                  
BORBOLETA AZUL                                                                        




Flores e imagens da borboleta Grátis Vector
 






 

           Brilhava à luz do sol,
           Airosamente,
           Uma borboleta azul,

           E eu, fascinado
           Por tanta beleza,
           Por tanta leveza,
           Apanhá-la eu quis.

            E ela volitava pelos ares
            E eu atrás dela corria.
            Percorri grandes distâncias,
            Durante noites,
            Durante dias.
     
             E quanto mais eu andava,
             De mim ela fugia.

             Já exausto,
             Para minha casa eu volto.
             Desconsolado e triste.

             Quando entro,
             O que encontro?
             - A borboleta azul
              Na janela de meu quarto..
          

             Autor: Geraldo de Castro Pereira



  
AS DUAS FLORES

São duas flores unidas
São duas rosas nascidas
Talvez do mesmo arrebol,
Vivendo,no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas
das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.

Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.

Unidas... Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!
Castro Alves

quarta-feira, 1 de abril de 2015



  
D E S E R T O 


 
Meu espírito irrequieto
Tornou-se um deserto
Por onde sigo
Só comigo
Num passo incerto.

Nele não chove,
Nada se move,
A não ser o meu corpo
Cansado e trôpego
De tanto andar.
E o sol se esconde,.
Não sei  até aonde
Eu irei chegar.

A areia de dia
Torna-se quente,
De noite se esfria.
Não tenho bússola
Nem uma estrela
Para me guiar..

Tudo é miragem,
Não há paisagem,
Só o deserto,
Atento e esperto,
A me espiar.

E vejo fantasmas
Como miasmas
Ao meu redor.
Triste e faminto,
E então eu sinto
Neste momento
Ao mesmo tempo
Frio e suor.!

Açula o vento,
E vem a noite
com seu açoite
Para me tragar!.


Graldo de Castro Pereira 





 
A FLOR E A FONTE – Vicente de Carvalho -

"Deixa-me, fonte!" Dizia
A flor, tonta de terror.
E a fonte, sonora e fria
Cantava, levando a flor.

"Deixa-me, deixa-me, fonte!"
Dizia a flor a chorar:
"Eu fui nascida no monte...
"Não me leves para o mar."

E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
Por sobre a areia corria,
Corria levando a flor.

"Ai, balanços do meu galho,
"Balanços do berço meu;
"Ai, claras gotas de orvalho
"Caídas do azul do céu!..."

Chorava a flor, e gemia,
Branca, branca de terror.
E a fonte, sonora e fria,
Rolava, levando a flor.

"Adeus, sombra das ramadas,
"Cantigas do rouxinol;
"Ai, festa das madrugadas,
"Doçuras do por do sol;

"Carícias das brisas leves
"Que abrem rasgões de luar...
"Fonte, fonte, não me leves,
"Não me leves para o mar!"

*

As correntezas da vida
E os restos do meu amor
Resvalam numa descida
Como a da fonte e da flor.

Pequena biografia de Vicente de Carvalho:



Começou como poeta lírico. Depois, fez parte do grupo de jovens poetas parnasianos. Escreveu lindos poemas, como "Palavras ao mar", "Cantigas Praianas", "A ternura do Mar", "Fugindo ao cativeiro", "Rosa, rosa de amor", "Velho Tema", "O Pequenino Morto" e o poema acima publicado neste blog "A Flor e a Fonte', dentre muitos outros. Era chamado de " O Poeta do Mar". Nasceu em Santos no dia cinco de abril de 1866, faleceu em 22 de abril  1924. Além de poemas, escreveu também contos, foi advogado, jornalista, abolicionista, político e magistrado.