domingo, 26 de julho de 2015





                        BOM DIA, DONA CARMEM!


                                 "I see friends shaking hands,saying: "How do you do?". They´re really saying:
                                  "I love you". (Vejo amigos apertando-se as mãos, dizendo:"Como você vai? - Eles realmente estão dizendo:"Eu amo você").
                                           (Da música: "What a wonderful World", de Louis Armstrong).




                                       



                              
                                    Todos os dias, com chuva ou com sol, lá estava ela fazendo sua caminhada vagarosa pela Avenida dos Andradas, Bairro Santa Efigênia, na maravilhosa cidade de Belo Horizonte.
                                    Andava meio curvada pelo peso dos anos. Uma octogenária, tão velha como como sua idade.
                                    Ia cumprimentando todas as pessoas em seu caminho, com um alegre "BOM DIA!". E recebia de volta sempre a resposta:"Bom dia, dona Carmem!"
                                    Jamais a vi de meu humor Soube que era viúva, já fazia quase vinte anos. Seus dois filhos, já casados, moravam no exterior.
                                    Ocupava ela uma casinha de alvenaria, situada numa rua paralela à Avenida Mem de Sá.
                                    Recebia do falecido marido uma pensão razoável. Ele tinha sido sargento da Polícia Militar de Minas Gerais, mas reformado como subtenente.
                                    Já conhecia pelo nome quase metade dos camihantes. Tentava, muitas vezes,
parar alguém para um papo. Não obtinha sucesso em seu intento, porque os transeuntes não queriam esfriar o ritmo das caminhadas.
                                    Um dia, ante a insistência dela, parei para uma ligeira prosa. Tive paciência. A velhinha, num verdadeiro estilo "ab ovo", veio contando sua vida. Ficamos ali quase uma hora, papeando, sentados na calçada.
                                    Perto havia um vendedor de água de coco. Pedi dois cocos. Ela recusou o convite e fiquei com apenas um, sorvendo devagar o líquido, atento às narrativas daquela simpática senhora.
                                   Em uma manhã ensolarada, lá fui fazer minha caminhada e notei enorme grupo de pesoas se formando perto do carrinho de coco. Curioso, perguntei a um senhor a razão de todo aquele burburinho. Ele foi logo dizendo:"dona Carmem está hospitalizada na Santa Casa de Misericórdia. Sofreu um enfarto. Está um pouco melhor".
                                    Eu indaguei: "Ela pode receber visitas?"
                                    O simpático idoso respondeu:" sim. Só é preciso comunicar o dia da visita, com antecedência, na portaria do hospital, porque é enorme a quantidade dos visitantes. A direção daquela casa de saúde estabeleceu, num ato inusitado, ate um horário especial para visitas, pela parte da manhã".
                                    Estive lá pra me inscrever como visitante. Só no dia seguinte. Tive que deixar meu nome e telefone, além do número de identidade.
                                    E, no dia aprazado, após enfrentar um fila quilométrica, consegui chegar perto do leito de dona Carmem. Ela estava lúcida e sorridente. Cumprimentou-me efusivamente. Desejei-lhe melhoras e tive logo que dela me despedir, pois muitas outras pessoas queriam dar-lhe conforto.

                                    Três dias depois minha visita, dona Carmem falecera. No enterro, ocorrido no Cemitério da Saudade, foi um alvoroço. Nunca via tanta gente reunida. Muitos homens e mulheres, inclusive crianças, choravam .Parecia enterro de artista. Eu também não contive minhas lágrimas.
                                    E, de repente, em coro, a multidão gritava, repetindo várias vezes:"Bom dia , dona Carmem! Descanse em paz"
                                    AMÉM!

                                    
                                 Geraldo de Castro Pereira.

sexta-feira, 24 de julho de 2015




  O  EX-SAPATEIRO  MÉDICO




Um esperto sapateiro,
Mas um mau profissional,
Fugiu de sua cidade,
Porque ali se dera mal.

Para um país distante
Meteu o pé na estrada.
Foi exercer medicina
Com firma falsicada.

Ali ficou bem famoso,
Ganhando muito dinheiro,
Vendendo um falso antídoto
Para o povoado inteiro.

O Rei daquele País,
estando muito doente,
Pediu aquele remédio,
Considerado eficiente.

Tendo o antídoto na mão,
Com cautela e sereno,
Depositou lá no frasco
Um poderoso veneno.

E, com sua autoridade,
Convocou o sapateiro.
Disse-lhe, com energia;
"Tu vais bebê-lo primeiro".

O falsário confessou
Ao monarca tão sisudo
estar engananando o povo,
Que acreditava em tudo.

O Rei chamou seus súditos
E falou em alta voz:
"Quanta ignorância e loucura
Julgais haver entre vós?

Por que assim confiastes
Em um tremendo farsante,
Colocando vossas vidas
Nesse perigo constante?

Pois, a vossa ignorância
Só serviu de exploração
E de enriquecimento
Para esse charlatão".

Modernizando esta fábula,
Eu acrescento com fé:
"Enquanto existir cavalo,
São Jorge não anda a pé'.

Obs: fábula de Fedro, por mim versificada.

Geraldo de Castro Pereira.




quarta-feira, 22 de julho de 2015




               
 A ÁGUIA,   A   CORUJA  E  A   TARTARUGA.



Resultado de imagem para imagens ou fotos de tartaruga, coruja e águia - para copiar e colar gratuitamente                                                                                                                      Tartaruga                                                                                                                                                                                                                                                                  


A águia estava com fome,
Saiu para uma caçada.
Pegou uma tartaruga,
Com sua garra afiada.

Em defesa, a tartaruga
Afundou-se no seu casco.
A ave ficou frustrada
Ante tamanho fiasco.

A coruja, muito esperta,
Vendo aquela situação,
Aproximou-se da águia
Para uma solução.

 E disse assim para a amiga:
"Estás numa enrascada!
Se dividires a prenda,
Resolverei a parada".

A águia, não tendo outro jeito,
Deu-lhe a seguinte resposta:
"Se o impasse solucionares,
Aceitarei a proposta".

A coruja, experiente,
Disse pra águia, sem medo;
"segura bem tua presa
E a lança contra um rochedo.

O casco se romperá
Com esse impacto causado.
E assim poderás, tranquila,
Comer o teu bom bocado".

Aquela ave de rapina
Contra a rocha arremessou
A medrosa tartaruga
E o casco se espatifou.

Apesar da proteção
Que a natureza lhe deu,
A pobre tartaruguinha
Infelizmente morreu.

E a águia não se livrou
De dividir a comida,
Aliás apetitosa,
Com sua mestra atrevida.

Por isso, como lição,
Uma coisa vou dizer:
"Quem poderá escapar
Da malícia e do poder?"

Obs: fábula de Fedro por mim versificada.

Geraldo de Cstro pereira.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

   O  V E A D O   E  A  F O N T E











Numa fonte toda limpa
O veado foi beber.
Sua imagem refletida
Viu na água aparecer.

E assim disse pra si mesmo:
"Meus cornos são bem torneados.
Mas, tenho pernas tão finas
Para correr  pelos prados".

De repente, ouviu as vozes
De terríveis caçadores.
E fugiu logo depressa
Dos cruéis perseguidores.

Correu pra uma floresta
Bem compacta e coesa.
Mas, sua linda galhada
Na ramagem ficou presa.

Tentou em vão retirá-la,
Mas os cães o acuaram.
E, sem dó nem piedade,
A mordê-lo começaram.

Já morrendo, exclamou:
"Sou tão infeliz, enfim.
Desprezei as minhas pernas
Que eram úteis para mim.

A beleza de meus cornos
Quanta desgraça me fez!
Se eles fossem menores,
Não morreria talvez".

Como lição de moral
Uma coisa vou contar:
"O que é útil para nós
Não devemos desprezar!"


Obs:fábula de Fedro, por mim versificada.

Geraldo de Castro Pereira.

                              

quarta-feira, 15 de julho de 2015




A S   D U A S    M U L A S   E   O S   L A D R Õ E S




Duas mulas carregadas
de bagagens pela estrada;
Uma levava dinheiro,
A outra levava cevada.

A que portava dinheiro,
Trotava, com alvoroço,
Ostentando, sobranceira,
Lindo guizo no pescoço.

Já a outra, pobre coitada,
A companheira seguia,
Com sua cabeça baixa,
Toda tristonha e sombria.

Mas, de súbito, uns  ladrões,
Num assalto bem tramado,
Cercaram a rica mula,
Deixando a outra de lado.

Apanharam o dinheiro,
Deixando ainda ferida
Aquela mula altaneira,
Fugindo logo em seguida.

A poderosa chorou,
Com muita dor e tristeza.
A pobre ficou feliz
Por ter se saído ilesa.

Da fábula acima eu deixo
Esta lição, meu amigo:
"Quem é rico sempre está
Rodeado de perigo".


Fábula de Fedro, por mim versificada,

Geraldo de Castro Pereira.

sábado, 11 de julho de 2015



         O    B E N Z E D O R


       

          Quando morava em Vitória, capital do Espírito Santo, adquiri um sítio na montanha, perto de um lugarejo chamado Aracê. Minha propriedade ficava cerca de quinze quilômetros da BR 101.
          A estrada era de terra.Quando chovia muito, virava um tormento. Muita lama e os caminhões e carros tinham muita dificuldade em transitar por ali.
          Construí um casinha toda de madeira perto de uma nascente cristalina. Aquele barulhinho da água rolando sobre os pedregulhos soava como música para meus ouvidos. Lá era o meu refúgio da vida agitada de juiz que levava no Tribunal.
          Eu tinha um vizinho, um senhor idoso, de nome José. Todos o chamavam de "seu Zé". Morava com sua esposa, Dona Maria, um senhora simples, mas de muito bom coração. A casinha deles era de pau a pique, rebocada de barro, com telhado de amianto, chão batido.O banheiro ficava do lado de fora, num pequeno cômodo, coberto de sapé.
          Eu o visitava muito, pois gostava de prosear com ele. Além disso, sua esposa preparava um café, o pó torrado na hora. Que delícia, servido em copos esmaltados. Não me esquecia de levar sempre uns biscoitos de polvilho para eles.
          'Seu' Zé era muito conhecido em todos os arredores dali, por ser um curandeiro. Só tinha um vício: a bebida. A venda, da qual era ele frequentador assíduo,distava uns três quilômetros. Montava em seu cavalinho e ia tomar da "branquinha", até ficar de porre.
          Dona Maria quase arrancava seus cabelinhos de neve, de tanta preocupação. Mas, o cavalinho, depois de tantas idas e vindas, conhecia o trajeto de olhos fechados e trazia seu dono, são e salvo.       
         De manhã cedo, quantas vezes vi o animal solto, ainda arreado, tentando pastar, embora o freio o atrapalhasse um pouco. Eu ia até lá e lhe arrancava o incômodo bridão.Só não tirava o arreio.
         Qualquer probleminha de saúde que eu tinha, vinha meu vizinho curandeiro querendo me benzer. Eu deixava, embora não acreditasse em nada daquilo. Ele rezava uma oração comprida, mista de palavras por ele inventadas e orações da Igreja Católica.
        Muitas pessoas acreditavam mesmo nas rezas e contavam terem sido curadas.
        Um dia, um empregado meu, so descascar uma cana, fez um corte profundo em seu dedo.
        Correu para a casa do "seu" Zé, para pedir ajuda. O sangue escorria sem parar.
        O benzedor imediatamente amarrou um pano no local da ferida, apanhou umas folhas de árvore, molhou-as na bica, segurou o dedo sanguinolento do rapaz e começou a rezar. Primeiro, fez o sinal da cruz. Em seguida, proferiu as seguintes palavras: "Deus é o sol, Deus é a lua, Deus é a claridade.Se tem sangue nesse dedo, não fique com medo. Peço a Jesus Cristo para, com suas mãos, estancar o sangue do Zael (era o nome do meu empregado), em nome de Deus e da Santíssima Trindade".
        Rezou depois três Ave-Marias e um "Pai-Nosso". Esfregou o ramo molhado no dedo do moço e terminou com o sinal da cruz.
        Acredite quem quiser: o dedo do rapaz parou de sangrar, quando o curandeiro acabou sua reza.
        Em outra ocasião, um vizinho correu para a casa do benzedor e gritou: "seu"Zé, seu cavalinho está se estrebuchando no chão. Vai morrer. Acuda".
        Eu estava perto. "Seu" Zé chegou sem nenhuma pressa.Imedantamente, perguntei:
        "Seu Zé",, não vai rezar para o cavalo ficar bom?"
        Simplesmente, respondeu:
        "Minhas rezas não podem ser usadas em meu próprio benefício. Deixe morrer".
         Diante do quadro e com pena do animal, chamei outro vizinho, de nome Aprígio. Veio correndo. Preparou uma garrafada com água,arnicão e álcool. Enfiou na garganta do bicho e despejou todo o conteúdo. Daí a pouco, o muar começou a espernear-se, vomitou uma quantidade de capim, misturado com folhas. Devagar, foi-se levantando, ensaiou uns passos, aprumou-se e começou a andar. Estava curado.
       E aí pensei na verdadeira frase:"santo de casa não faz milagre".

       Geraldo de Castro Pereira.
       


      
           

      

quinta-feira, 9 de julho de 2015

CHANSON D´AUTOMNE

PAUL  VERLAINE
                 


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Les sanglots longs
Des violons
De l’automne
Blessent mon coeur
D’une langueur
Monotone.


Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l’heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure


Et je m’en vais
Au vent mauvais
Qui m’emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.


Canção de Outono

Tradução: Jefferson Marques Barbosa


As longas vibrações
Das cordas dos violões
De outono
Deixam em langor
Meu coração com dor
A vagar pelo sono.

Todo sufocando
E pálido, quando
Chega a hora,
Eu me lembro triste
Do passado que insiste
E minh’alma chora.

Então me deixo levar
Pelo vento a pairar
Que me transporta
Para todos os cantos,
Como uma folha sem pranto
Sem peso e morta.



Obs: a tradução feita em versos por Jefferson Marques Barbosa não é literal, mas de forma mais livre. Por exemplo, ele traduz a palavra "violon', como violão. Na verdade, é 'violino". Violão na língua francesa é "guitare". Além disso, o tradutor acrescentou palavras que não existem no poema de Verlaine.
Paul Marie Verlaine nasceu em1844 na cidade de Metz, leste da França e faleceu em 8 de janeiro de 1896, sendo considerado um dos maiores e mais populares poetas franceses.