quinta-feira, 11 de junho de 2015

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O  VELHO   E   O   JUMENTO


Certa vez, sábio velhinho,

Muito doente e cansado,
Apascentava um jumento

Com muito esmero e cuidado.


 Temeroso e estarrecido
Com tamanha corrupção

Nos governos anarquistas,
Ao jumento disse então:

 
“As eleições estão perto,
Meu animal belo e bruto!

Pode aqui se instalar
Mais um governo corrupto.
 

Para não sofreres tanto,
E cair prisioneiro,

Fuja logo pra bem longe.
Vá depressa, bem ligeiro.


 O jumento deu de ombros
Para aquela advertência.

Respondeu a seu pastor,
Com firmeza e inteligência:
 
“Irão mudar meu destino?

Que me prendam, eu não ligo.
  
Continuarei sempre escravo,

Só vou mudar de inimigo”.


Que lição nós tiraremos

Desta fábula, de novo?

“A alternância de um governo
Não muda a sorte de um povo".

 
(Fábula de Fedro, por mim versificada)
Geraldo de Castro Pereira

quarta-feira, 10 de junho de 2015


                                 S E L V A    E S C U R A

                
                                           “ Nel mezzo del cammin di nostra vita
                                           Mi ritrovai per una selva oscura,
                                           Ché la diritta via era smarrita."

                                                  Dante Alighieri (in "DIVINA COMÉDIA")


 




 

                                          


 
Na nostalgia da existência aflita
Uma sombra fluídica inquieta se agita.
Sidéreos vultos atônitos,
Em cada curva
catatônicos,
Campeiam, ao léu,
pelo mausoléu
Da inteligência turva.

Raios fugidios
Faíscam na atmosfera opaca
Do contingente ser sensibilizado.
E sinto em mim
Um soçobro violento
Que, aos quatro ventos,
Para bem longe lança
A barca da Esperança.

E neste vórtice infinito
Vou seguindo, sôfrego,
Cansado e trôpego,
Com um grito
Engasgado na garganta

Sem guia, sem rumo
Eu tombo e me aprumo.
E nesta selva escura
Vou tateando a amargura
Do meu solitário
E merencório mundo.


Geraldo de Castro Pereira.

 

terça-feira, 9 de junho de 2015





Favela

  

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 Favela,

 Onde luz é vela!

 Favela,

 Onde cama é chão.

 Fornalha de lenha

 Pra cozinhar o quê?

 Se chove,

 Tudo molha,

 Ninguém olha

 E ninguém se move

 Em sua direção.

 

 Farrapos de gente,

 Barrigas vazias,

 Mas cheias de fome

 E de vermes famintos.

 A sujeira é a veste

 De suas nuas peles.

 

 De que adianta

 Falar para esta gente

 Palavras belas,

 Cheias de balelas?

 Falar-lhes de Deus?

 Contar-lhes que Cristo foi pobre

 E morreu numa cruz?

 

 Levar-lhes esmola,

 Dar-lhes leite e pão?

 Não, só isto não basta. Mil vezes, NÃO!

 Do que precisa essa gente

 é de instrução,emprego, saúde, segurança,

VIDA DECENTE!
 

 Ensinem-lhes a pescar!

 Não pesquem pra eles, não!

 
 Favela,

 Onde luz é vela,

 Favela de povo pobre,

 Tem solução?

 

Obs. Este poema foi escrito quando eu era ainda estudante de Direito na Puc-Minas.  Fui visitar uma favela de Belo Horizonte-MG, na companhia de duas assistentes sociais, amigas minhas. As cenas que vi me impressionaram muito. 

 
Geraldo de Castro Pereira

segunda-feira, 8 de junho de 2015




HAIkAIS II




 O céu estrelado
Apontava para mim

Seus dedos de prata.

      +++

Não quero dinheiro,
Nem tampouco homenagens:

Só quero um abraço.

         +++

Maria das Dores
Conseguiu trocar seu nome,

Mas não suas dores.

     +++

O vento cessou
De cantar no bambuzal:

Somente assobia.

     ***
Já  fugiu a noite,

Não apareceu o dia.
mas restou a vida.

    ***

No caleidoscópio
Da vida eu vejo você

Em todas as cores.

 +++

Bina detestou
O "carinho" do marido:

“Minha cara Bina”.

    ***
Você suavemente

deslisou no tobogã

Da minha paixão.

         ***

 A humildade é um rolo
Compressor que sempre esmaga

Qualquer arrogância.



Geraldo de Castro Pereira



domingo, 7 de junho de 2015




                         
MEU TOTÓ

 “O amor pode fazer um cão ladrar em versos”-(John Fletcher).



 Eu tinha um cãozinho

Chamado Totó.

Era tão magrinho

Que fazia dó.

Por onde eu andava,

Comigo ele ia.

Quer seja de noite,

Quer seja de dia.

E quando eu tocava

Meu acordeom,

Ficava uivando,

Mas, fora do tom.

Um dia, comigo

Levei meu cãozinho

Prá ver meu amigo,

Que era  vizinho.

Estava chovendo.

Guiava meu carro,

Por uma estradinha

Repleta de barro.

Coloquei meu cão

Na carroceria.

Mas,ficar comigo

ele só queria.


E , desesperado,

Meu pobre animal

Pulou de repente

Lá no lamaçal.

Na lama ficou

Todo enterrado.

Freei o meu carro,

Com muito cuidado.

E quando dei ré,

Ouvi um gemido.

Desci para ver

O acontecido.

A cena que vi

Me estarreceu:

 Totó esmagado

Embaixo do pneu.


Ergui o animal.

Estava mortinho!

Tirei-o dali

Com muito carinho.

Ao pé de um morro

Enterrei o cão.

Cerquei tudo em volta,

Forrei bem o chão.

Todo vez que eu volto

Àquele lugar

O meu amiguinho

Eu vou visitar.


Eu levo comigo

Meu acordeom.

E ouço um ganido

Bem fora do tom.


Geraldo de Castro Pereira





sábado, 6 de junho de 2015




                      
FIDELIDADE   DO CÃO

  

 
Um cão estava de guarda  
Na casa de seu senhor.
De repente apareceu
Um ladrão ameaçador.     



Isto já era de noite.
Mas, o larápio então,
Para enganar o cachorro
lançou-lhe um naco de pão.
 
“Olá”,- exclamou o cão!
Não estou vivendo à míngua
Não queiras calar com pão
A minha afiada língua !      


Meu patrão é generoso
Não me deixa faltar nada.

Sou muito fiel a ele,

Pois é muito camarada.        
     
Agora é que vou ladrar,
Com toda a força possível.   

Não penses em me igualar
A pessoas do teu nível”.       



Como moral da história
Fica aqui esta verdade:
“sempre merece elogios
Quem cultiva a lealdade.”




Obs: fábula de Fedro, traduzida do latim, foi versificada por mim.


GERALDO DE CASTRO PEREIRA






sexta-feira, 5 de junho de 2015




       
             A  RAPOSA  E A ÁGUIA 





           












             Numa certa ocasião,
            Uma águia altaneira
            Agasalhou seus filhotes
            No alto de uma palmeira.
 
           A águia, não achando meios
           Para a prole alimentar,        
           As crias de uma raposa
           Com violência foi roubar.
 
           A raposa, mãe zelosa,
           Ficou cheia de revolta.  
           Perseguiu aquela ave
           Pra ter seus filhos de volta.     
 
           Usou de todos os meios,
           Com prantos e exclamações,
           Mas de nada adiantaram
           As suas lamentações.
 
            E, não tendo outra saída,
           Chegou-se até a um altar.
           Tirou uma tocha acesa
           Para a palmeira queimar
 
           É claro que era insano
           O desespero do gesto,
           Pois poderia matar
           Os filhos e todo o resto.
 
           A águia, vendo o perigo
           Que todo o mundo corria,
           Devolveu para a raposa,
           Incólume, a sua cria
 
          Como moral da história,
          poderei  acrescentar:
          “A astúcia do  mais fraco
          Não se deve desprezar”
 
     
        Obs:  fábula de Fedro, numa tradução mais livre do latim.

     Espero que gostem. Versos heptassílabos.

                 Geraldo de Castro Pereira